Aqui é onde a terra se despe
e o tempo se deita..

(Mia Couto, A Varanda do Frangipani)

segunda-feira, 30 de maio de 2016

A carta que nunca lerás



  Eu desejo para ti um caminho bonito. Onde, quando e com quem estiveres, que seja completo e verdadeiro teu instante. Não espera sempre pelas placas de sinalização. Começa devagar a procurar novas paisagens e não tenhas medo de partir em viagens sem programação, sem data para voltar. Vai. Simplifica as coisas o máximo que puderes. 
  Se o dia estiver bonito, ótimo. Nos dias que chover aproveita também. Aproveita para tirar o pó de lembranças bonitas. Claro que tu tens alguma coisa bonita para lembrar. Nem que seja aquela noite em que choveu e ficamos no carro por horas, lembra? Há de ter ficado um pouco de carinho nessa memória. Porque as lembranças nos alcançam mesmo que a gente não queira. Não tentes fugir disso. Não tentes impedir que teu coração bata um pouquinho mais rápido se por acaso estiveres passando por aquela praça e lembrares, era madrugada e o mundo molhado se enfeitou. 
  Aceita os presentes bonitos da vida. Agradece cada hora do teu dia. Olha para os lados, para todos os lados. Sempre há algo diferente esperando para te surpreender e te fazer sorrir. Por falar nisso, por favor, sorri mais. RELAXA. Respira fundo e solta toda essa tensão. Teus ombros não suportam tanto peso. Olha mais para o céu. Sorri para aquela estrelinha que aparece ao lado da lua, lembra que é um planeta e não uma estrela, e isso não fará a menor diferença se servir para te fazer sorrir. Tira o chinelo algumas vezes para sentir a grama em teus pés. 
  Tudo passa. Tudo mesmo. E tu sabes disso. Por isso não te apegues tanto. Vive tudo que puderes. Abraça. Fala que ama. Sorri ao telefone. depois guarda-o e sai com os amigos. Divirta-se verdadeiramente. Faz coisas bacanas. Coisas bobas que servem apenas para nos deixar com aquela sensação incrível de leveza na alma. Deixa de lado tudo que não te fizer sentir amor. E agarra com todo teu coração o que chegar até ti com amor. Não solta. 
  Fala. Grita. Dá boas gargalhadas. Come menos besteiras,  mais comida quentinha, de mãe. Passa mais tempo com algumas crianças, aprende com elas. Muda de ideia. Troca. Não tenhas vergonha. Guarda as coisas bonitas, dentro de ti. Joga  fora as outras que não sejam úteis, agradáveis ou belas. Só o que é bonito e verdadeiro permanece. 
  E se puderes, só se puderes, não te esqueças de nós. Fomos bonitos juntos e dividir a vida com alguém é um privilégio único, e estar ao teu lado, mesmo que não te pareças, foi importante. Foi lindo. 
  E antes que eu esqueça, coloca alguma flor dentro de casa. Coloca flores no teu coração também. 

  E por fim, aceita um beijo de quem bem te quer.







Um bilhete para mim que foi para ti


Pensei em te escrever. 

Uma carta? 
Muito longa.

Um bilhete. 

( Era apenas para  dizer que não sinto mais saudade de nós. Um bilhete  para lembrar ( a mim mesma) que nada mais é como antes. Óbvio. Mas eu havia esquecido. Agora já consigo nos lembrar e ver que nunca fomos mais do que apenas dois que caminhavam em direções opostas e que por um acaso encontraram-se num cruzamento entre caminhos. Não era para ser nada. Apenas breve passagem. Um átimo e nada mais. Não há o que lamentar. Eu deveria agradecer-te. Não quero, porque eu caminhava e esbarraste em mim como vento forte. Nada te pedi. Nada te deixei. Seremos pessoas melhores se nos abstrairmos. Eu e tu nunca passaremos pela mesma estrada. Somos o afastamento necessário. Somos a distância que nos faz bem. Juntos fomos apenas erro. ) 

Não falaremos mais sobre nossos erros. 




A primeira luz da manhã - Thrity Umrigar


  Thrity Umrigar foi considerada a escritora mais sensível da atualidade. A primeira Luz da Manhã é sua autobiografia. Um relato carregado de emoção, verdadeiro, cru. Mesclando suas verdades divertidas e compartilhando suas dores. Eu já havia lido sobre a Índia, mas nunca havia lido nada escrito por algum autor Indiano. Foi uma grata surpresa. Adorei o livro. Não há como discordar da sua perfeita escrita sensível. Uma leitura cativante. Quando encontrei esse livro o que mais me chamou atenção foi o seguinte escrito:

" De aniversário, me dão blusas de poliéster e calças de gabardine. Só quero usar jeans. Ninguém me dá jeans. Todo mundo sabe que devoro livros como se fossem barras de chocolate, que adoro música. Ainda assim, nenhum adulto jamais me compra um livro ou um disco de presente. Aliás, talvez seja até bom que não me deem o tipo de presente que me agrada. Diante do pouco que conhecem meu gosto, eu acabaria ganhando livros de poliéster e discos de gabardine. "

Depois:

" (...) Quando a vida se mostra inexprimivelmente difícil e triste, alguns acendem velas, outros procuram uma igreja, mas há outros que se voltam para a magia dos livros. "

 " É assim  que aprendo como é o amor, com minha tia solteirona de olhar triste, excessivamente sentimental, hipersensível e dada a sacrifícios, que me cria como se eu tivesse saído de dentro de seu corpo pequeno, como se tivesse me amamentado em seus seios minúsculos. Por isso nunca penso na maternidade como um conceito biológico. Por isso acredito que os laços da maternidade são criados diariamente, por atos de bondade, de afeto e devoção."

 " Já tenho um radar bem treinado para identificar a solidão nos outros, ou ao menos é o que suponho. Imagino poder reconhecer essas pessoas em qualquer lugar, que algo na maneira como sondam o céu ou na expressão vazia em seus olhos me diz que elas são como eu. "

 " Nessa noite, desejo ainda acreditar em Deus, pois minha vontade é agradecer bem alto aos céus. Em vez disso, me debruço no parapeito da varanda e converso com as estrelas. Uma delas pisca para mim. "

Uma leitura cheia de paradoxos,  a autora tece com teias de palavras muito bem colocadas uma rede de personagens ricos e apaixonantes.


Para ler em busca de inspiração nas grandes mudanças da vida. ( Vale para as pequenas também )











segunda-feira, 16 de maio de 2016







Porque também somos feitos do que nos dói. 




Esperar-se



Ela esperava que ele viesse
Ele queria que ela viesse
Ela esperava
Ele queria
Ele não veio
Ela não foi







AMAR



Amar
Depois de Amar
E Amar
para continuar
a Amar
até que não se saiba fazer outra coisa
a não ser Amar.





Fica


Ontem tive vontade de ficar.
Hoje tenho vontade de ficar.
Tanta coisa pendente.
Agora faz cada vez mais frio e a lareira parece sofrer de ausência de público.
O tapete nem sentiu nosso peso.
A lua não sabe como somos juntos.
Nossa casa  é só um terreno vazio. Um triste monte de terra abandonado.
A bagagem ficou ma espera. Não embarcaremos. Outra viagem sem sequer partir.
Eu quis ficar. Como quis.
Ainda quero.
Não posso.
Seguir adiante já não parece ser um bom destino.
Sou tão covarde.
Fraca.
Temerosa.
Sou a antítese do que sinto.
E tudo que sinto agora é uma imensa vontade de te pedir para ficar.

Fica?




quarta-feira, 11 de maio de 2016

Nos fizemos tão mal


Atravessei o tênue limite do gostar. Adoeci. Segurei tua mão e persegui tua dor. Vivi cada sofrimento teu. Peguei para mim e afaguei. Cuidei de ti como mãe que cuida de filho febril. Tive medo de não conseguir mais voltar. Tua imagem se mostrava distante. Te busquei desesperadamente. Tu nunca me viste, entrei e sai sem ser percebida. Me fiz tão mal. Cai de cama. Doeu cada respiração depois de ti. Perdi. Sofri. Chorei. 
Insone. Insana. 
Sangrei toda minha dor. Sobrevivi de migalhas. Foi bonito, intenso, solitário. Foi quase cruel. Tu não estás aqui, não vives de agoras. Tuas memórias se perderam há muito tempo misturadas com outras coisas que não consegui entender. Te perdi. Nesse mesmo instante de perda consegui meu resgate. Sofri outra vez. Por outro motivo agora, mas igualmente doloroso. Tentei, busquei, quis tanto que fôssemos nós. Esforço vão. Tentativa vazia. Na minha crença nenhum momento é perdido. Aprendi. Belíssima lição tirada de um lugar de nunca consegui estar: teu coração.

( por hoje apenas gratidão por algo que está cicatrizando, amanhã talvez chegue o entendimento ou a aceitação das coisas que não podem ser mudadas. A maior lição? Nem sempre quem te pede para colocar chinelos e não pisar no piso frio está amando. Às vezes é apenas hábito.)