Aqui é onde a terra se despe
e o tempo se deita..

(Mia Couto, A Varanda do Frangipani)

segunda-feira, 31 de dezembro de 2012

Tu



Tu eras também uma pequena folha
que tremia no meu peito.
O vento da vida pôs-te ali.
A princípio não te vi: não soube
que ias comigo,
até que as tuas raízes
atravessaram meu peito,
se uniram aos fios do meu sangue,
falaram pela minha boca,
floresceram comigo.

Pablo Neruda


 Li um dia, não sei onde,
Que em todos os namorados
Uns amam muito, e outros
Contentam-se em ser amados.
Fico a cismar pensativa
Neste mistério encantado...
Diga prá mim: De nós dois
Quem ama e quem é amado?

Florbela Espanca 



sábado, 29 de dezembro de 2012

Sobre o que se aprende, ou não


Tudo é tão circular que causa vertigem. Pensar que evoluímos enquanto aprendemos e crescemos começa perder a coerência e é chegada a época dos balanços. Com o advento das redes sociais agora esses diários são públicos e repetitivos. Melhoramos? Não sei. Crescemos? Sim, parece que muito, mas não necessariamente evoluímos; Tomara que todos aqueles escritos escancarados em janelas sorridentes tenha algum fundo de verdade, e principalmente aportes. De minha parte, começo achar engraçado ( para tentar usar outra palavra ao invés de Estranho ). Algo sempre muda. Comecei a pensar sobre o fato da evolução ser considerada um acúmulo de experiências. Só posso falar sobre a minha própria, e em relação à isso me sinto confortável quando avalio pela direção contrária. Algo me apontava outro caminho, minha curiosidade jamais deixaria passar. Bela surpresa. O verdadeiro só começou acontecer quando comecei largar as experiências acumuladas e, soltando amarras, esvaziando malas, libertando antigas crenças, buscando ser apenas mais leve. Tudo que tinha foi avaliado e devidamente encaixotado e etiquetado, tomando rumos diferentes (obrigatoriamente), nada ficou no lugar antigo. Quero crer na individualidade sempre, no dentro pra fora. Certo que isso não será certo para todos, acho  bonito e um descanso  para a filosofia. Agora com espaço aberto para tudo conseguir respirar, acredito ser a evolução não a soma, mas o desapego de todas as experiências, com avaliação e aprendizado, mas sem acúmulos. Com as mãos vazias e um coração pleno em saber dar, muito mais do que esperar receber. Não quero ter a limitação de  esperar ser um ano novo para me libertar do que me incomoda ou para fazer vontades. Não quero anos novos, quero dias inteiros e, só. 








sexta-feira, 28 de dezembro de 2012





Se tu vens a salvar-me dessa minha inexistência diária...




Sendo relativo o tempo ainda assim demora


Era chuva ontem, não tentei dormir; Um tempo de música. Templo. Te li, busquei  imagens opacas, sempre te imagino em preto e branco. As cores vem depois, contigo. Veremos. O tântrico será casa. Abrigo. Ainda é véspera. Espera. Espere; O novo, ou o reencontro. Diferente. Marcado. Segundo mês, será o primeiro. Será verão e viveremos um outono, no outono será inverno e o inverno será o mesmo para sempre. Mudaremos. Ou não; 




( Sobra sempre um espaço branco, que vale 49 dias )


Da busca







Era assim que eu sentia
Algumas vezes eu Mão e tu Passarinho
Outras eu Passarinho e tu Mão

( até o dia que Passarinho vira Mão )





Sem legendas








Queimei incenso
Acendi velas
Fiz chá de flores amarelas
Tomei banho com água e mel
Vesti azul
Escolhi música para quando o sol se põe
Coloquei flores ao lado da porta


( encanto-me com os rituais de te esperar )




Tomara que Alice me leia agora!


quinta-feira, 27 de dezembro de 2012






Eram desejos simples
Um jantar e vinho tinto
Talvez um beijo;

( é pedir muito? )




Quando chove



( Ela )

Gosto de sentir a chuva assim, como agora. Fico sozinha. É minha música preferida. Minha distração. Uma cura. Talvez queira sarar desse sentimento; ou é a falta dele? Não sei. Não saberemos. Libertador estar aqui, esta rua, esta noite. Aqui fora posso respirar. Água que lava e leva meus temores. Sinto como se pudesse simplesmente desmanchar-me. Sou chuva por alguns instantes. Misturas. Lembro de quando falamos sobre a mistura de gostos. Vésperas. Ainda vai ser. Faço uma prece, quero despedir-me de mim. Conjugo verbos na quarta pessoa. Deixo escorrer pela calçada o singular. Seremos o plural. Este instante. Tive saudade das imagens dos nossos sonhos. Te esperei. Olhei para o fim da rua. Procuro. Tu vens?

( Ele )

- Sim, estou aqui. Deixa eu te levar para dentro? Chove. Estás molhada. Demorei. Me perdoa? Preciso te aquecer. Te faço um chá. Maçãs. Olha pra mim. Falo sério agora. Vamos? Quero te contar um sonho que tive. Esqueci a água no fogo. Te trouxe uma toalha seca. Se não quiseres  o chá faço um café para nós. Sem leite. Tens que tirar esse casaco. Vista  o meu. Vai molhar também. Tudo bem. Estou aqui. Já me molhei e vou te beijar agora!


quinta-feira, 13 de dezembro de 2012

Da importância que tem os curativos


Eu não conseguia distinguir qual a dor machucava mais, não podia colocar o pé no chão, ainda não havia aprendido a voar; os passos precisavam ser lentos, a vida cobrava uma certa urgência em todas as questões pendentes; era um dezembro, metade dele. Impreciso, nunca antes tinha tido um pai e agora, ele estava lá, ou aqui; estava junto. Estavam. Era perto. Na eminência do fim do mundo, talvez ele houvesse acabado antes e esse agora seja apenas uma reconstrução, rostos refeitos. Dezembro sempre abre cicatrizes, elas sangram; dessa vez os ferimentos foram fechados, costurados em casa. Era uma casa.  No mês em que tudo termina, eu estava começando; ainda caminhando devagar, mas havia uma mão para segurar, pela primeira vez senti. E talvez todo o resto tenha sido um engano; os olhos verdes que tanto amedrontavam poderiam estar apenas dentro dos meus próprios olhos escuros demais.




sexta-feira, 7 de dezembro de 2012


Eram tardes de um branco profundo, sem paredes. Não cabia sequer uma música; fazia chuva e o sino badalava ao longe, pude ouvir. O silêncio estava perto, o sino longe; e tu? 


quarta-feira, 5 de dezembro de 2012




é vida sempre




Ainda sobre o sol, mesmo que seja madrugada


Era sobre o medo, ou sobre alguma busca, talvez coragem. Era sobre estar perto; conectados. Inquietos e em paz; Era sobre colocar os fones de ouvido só para que nada mais importasse; era sobre estar junto e o medo de ir embora. Sobre ficar sem dormir e imaginar uma voz. Era sobre voar ou saltar, ver o céu. Poderia ser uma questão de sorte, de acreditar ou não. Era sobre querer, um quase tocar; leve. Surreal. Era sobre o medo dos desencontros. Sobre não esquecer. Era muito sobre música e alguns outros contos. Era sobre permanecer. Era sobre ler e mostrar o mundo. Sobre ser depois e ver um outro mundo.

( era muito mais sobre imaginar a expressão contida em cada frase, e depois; nas reticências)



sexta-feira, 30 de novembro de 2012

Foi-se esse tempo, já é hora de dormir


Chegou a hora de não estar mais lá, perdi o tempo de permanecer. As paredes brancas e o piso frio, ainda branco ou sempre em branco; um remendo. Desordem para o incio da sanidade, estou de saída. Vou sentir falta do jardineiro de todas as manhãs, do cheiro da garagem que nunca consegui descrever; deve ser algo da mistura do chão batido, com os móveis antigos e o monóxido do escapamento. O monóxido. Vem comigo velho jardineiro? Isso não deve constar nos teus planos, apenas uma pretensão minha, tenho medo de não reconhecer mais as ervas, tenho medo de encontrar só concreto sem floreiras; Gosto das pteridófitas; samambaias gostam de rituais, pedem água e são internas. Bonitas folhas espiraladas. As espirais sempre foram uma constante nos rascunhos, velhos sinais. São dezessete passos até a porta, foram duas portas novas, quatro fechaduras e seis chaves, dois alarmes e três esferas de concreto. Dois nomes, cinco corpos; dois registros de domínio, agora os emails voltam. Eu vou.


quinta-feira, 29 de novembro de 2012

Tudo foi feito pelo sol


Houve uma pausa
( silêncio )
- Te assustei?
- Não. Longe ainda.
- Longe, longe?
- Muito. ( outro silêncio e continua ) :
- Muito longe e cada vez mais perto;

( alguém ficou sem ar por alguns instantes )






quarta-feira, 28 de novembro de 2012

Sobre o mito, ou a quebra dele


É como se houvesse ameaça de rompimento da casca que permaneceu intacta sobre a pele por todo esse tempo. Não acho uma razão exata e nem consigo estabelecer uma ordem cronológica nos acontecimentos. Me sinto estranhamente vulnerável agora, e também indecisa entre o fugir e o permanecer. Nada foi planejado, e pode ser apenas um monte de projeções noturnas causadas por semanas de uma insônia alucinógena. Conexão. Ou é  apenas medo. Lendo alguns livros não consigo deixar de imaginar que poderia ser uma história e, ao mesmo tempo não consigo enxergar como possibilidade real. Escrever é tão mais seguro do que sentir, se é que pode-se escrever sobre o que não foi sentido, então sinceramente não sei. Faz tempo que não chove aqui, a cidade está seca. Sobre todo o resto, só posso afirmar que é a imunidade é impossível em dezembro.


segunda-feira, 26 de novembro de 2012

Enquanto ainda é cedo


A manhã sempre chega lenta, parece nunca envelhecer. A noite é uma velha rancorosa e ainda lúcida. A água passa pelo corpo, retira os restos que grudaram na pele de horas de uma escuridão marcada por um suor seco. O café acorda para o dia quem nunca dorme; há espaço na xícara para um juramento. Melhor beber enquanto ainda é quente. Aqui as coisas mudam depressa demais; demasiado tarde agora, sem açúcar. Apenas um dia a menos no marcador de tempo, só mais algumas horas sobrando onde tudo falta. As ruas sempre estão vazias de pressa quando ainda o dia está por vir. Somente a igreja imponente na praça. Eu penso sobre me mudar. Ouço uma canção que fala sobre um lugar onde a inocência cabia antes das tempestades. 
Morning, Kepp the streets empty for me.




domingo, 25 de novembro de 2012

Temporária (mente)


O calendário deveria prever pequenas ausências, certas datas deveriam ser extintas; um espaço de tempo em branco. Esses dia tem sido feitos de uma matéria densa, e tudo ainda está por vir. Hora de tentar desfazer o inevitável. Paradoxos. Ainda não aprendi a existir, ainda não sou eu aqui nesse lugar onde ninguém habita; Um isolamento entre o espaço da janela até porta, a fechadura enferrujada. Horas arrastadas. Quantas vezes ainda será possível morrer antes que o relógio pare?

Os dias envelheceram na mesma proporção das coisas que faziam sentido. Deveria ter sido inversamente proporcional, em uma escala de tempo mais gentil. Nunca escreveu-se tão pouco. Seria preciso agora uma revisão em todos os cálculos de possíveis rotas. É doloroso rasgar os antigos mapas. É intenso o ato de desfazer; retroceder. Sobreviverão?




segunda-feira, 12 de novembro de 2012

Orações improváveis


Nunca escrevi tão pouco, nunca escrevi. A cidade está seca, chove pouco. Não chove. A secura que faz lá fora é a mesma que chega até a garganta. A voz falha em uma rouquidão de areia e sal, em plena serra. Não existe mais conexão, o previsível deixou de fazer parte desse dia, não vou mais voltar. Quero entregar as chaves e deixar o piso empoeirado. Sair e não olhar o espaço em branco, jamais será novamente tão branco, não sei porque ainda me importo com o pó. Essa não é minha casa, apenas um espaço ocupado por alguém que vestiu-se de mim, nunca fui eu, nem estive aqui entre minhas coisas agora espalhadas. O mofo tomou conta do café que restou na xícara sobre a pia, apareceram pelos no mofo. Até o tempo tem sua validade quando preso em um lugar que não é seu. Até o relógio cansa e continua na mesma parede sem mais entender a ausência de movimentos em seus ponteiros.

( Não deixe uma carta desta vez, tente saber que horas são.)



segunda-feira, 8 de outubro de 2012

Inútil escrever para os mortos


Nesse dia em que nada sinto, coloco-me a tua frente nua, desconstruída de todo meu eu, querendo nada ser.  Pensei na tua morte algumas vezes, senti o cheiro do teu túmulo enquanto me via arrancando tua pele em busca de alguma veia por trás da casca. Não imagines crueldade, não era isso, era apenas minha busca. Te queria vivo, comigo; com outros olhos, menos verdes e menos acusadores. Te queria vivo quando nasci, para que tivesses me sentido enquanto tua cria. Te queria vivo para que lambesses minhas dores de um nascer sem oxigênio, um sem respirar cianótico, um quase natimorto. Porque eu não nasci, e nem tu. Porque ficamos naquela incubadora e não vingamos. Porque senti tua falta e tu continuastes caminhando sozinho, nunca me destes calçados, tenho feridas nos pés agora;  não sinto mais essas dores, a  dormência cresceu em mim logo que o frio chegou e as vinhas pararam de brotar. Nada ficará entre parenteses, as cartas nunca serão lidas pelos mortos, ainda que destinatário e remetente estejam na mesma horizontalidade.



sexta-feira, 5 de outubro de 2012

Atrevimento dos dias assim


Parece que o pio leve do passarinho é só uma tristeza fraca, assim mesmo sem cantar, só um piar lamentando o que ainda não foi. O musgo que cresce ao lado da janela também parece ter perdido um pouco do verde. Umidade demais. Unidade. Mesmo que não chova, nas nuvens vejo um pesar, talvez seja natural que o interpérie imagine o brilhar do sol nesses dias como um atrevimento, afinal nada hoje justifica esse céu assim escancarado e o sol amarelo que me soa falso. Nem o sino deveria movimentar-se no campanário hoje às seis da tarde, mas ele tem sua rotina e vai badalar por respeito as horas que lhe são sagradas. Aqui nunca é dezoito, sempre serão apenas doze as horas. Isso é o bastante.

( desde que se quebraram os relógios, só o sino me lembra que é hora de passar a ponte, e mesmo que eu não queira, tenho que estar lá quando a coruja piar.)

segunda-feira, 17 de setembro de 2012

Dylânica


Quando pele de cão não escreve ficam dois vazios: a folha e minha obsessão. Entre cada linha escrita algo de dolorido e intenso, tuas viagens internas são sempre meio mórbidas e umedecidas de água e um sal que não desmancha, queria ler cada pensamento antes de chegar ao grafite; antecipações. Procuro por teus vestígios em quase tudo que leio; o cigarro que parece nunca apagar. O cheiro da fumaça por entre teus dentes marcados de nicotina conseguem encontrar sabedoria no ato de fumar, eu imagino só o encantamento, ou uma espécie de hipnose. Ele habita outro universo; distanciamentos. Em comum, apenas a paixão por escrever, algo no gosto musical e bastante dos sentimentalismos; sazonalidades. Apenas pretensão minha; muita pretensão. É que existe muito de nostalgia na chuva de hoje.

( não te molhes, ainda que pareça ter chegado teu verão, faz frio aqui perto da velha ponte de ferro.)




sábado, 15 de setembro de 2012

Marcador de páginas


Tanto tempo longe de casa. A música quando toca na rádio é distante como o lugar  onde perdemos as chaves; não tem como sentir o vento sem lembrar da ponte que sempre engolia as águas passantes, elas também nunca completam seu curso, sempre são outras águas, mas a ponte é sempre a mesma. Não existe mais o atalho. Sinto algumas vezes inveja dessa coisa simples de poder não existir mais, parece tão seguro. Não existir deve ser um bom lugar para se estar em dias como amanhã.  Podia começar hoje; deixar o livro aberto ou com páginas marcadas é cruel com as histórias de dentro, deveria estar intacto, sagrado, onde tudo contém e não está inserido em nada; palavras libertas. Será que as palavras realmente buscam algo? Será que elas têm entendimento das sensações que causam? Queria poder pensar em sânscrito enquanto busco quebrar o cadeado.

( eu teria usado o plural se entre as palavras existisse alguma racionalidade em tentar evitar os acorrentamentos )


quinta-feira, 13 de setembro de 2012

Da inutilidade que tem a memória


O mundo agora cobra esforços maiores, por isso demoro mais até chegar aqui. Nunca um inverno foi tão quente na serra, falta algo na chuva. Pouco provável que tenhamos boas notícias antes de mudar a estação. Setembro sempre é um mês melhor, e esquecer o agosto é questão obrigatória. Estranho ter que lembrar os nomes de tudo sempre, não deve ser natural essa coisa de excessos. De qualquer forma tu não lembrarias de tudo, és esquecido. Teu óculos ainda está na caixinha sobre minha mesa, mas não te lembras, nem do óculos e nem da mesa. Mais cedo ou mais tarde todos acabamos fugindo de algo ou alguém. Observar a vida sob essa perspectiva é como morar sem habitar; menos apegável, menos sofrível e mais suportável. Não entramos na igreja naquela semana. A luz nos vitrais sempre é a mesma, estando os espectadores lá ou não;


segunda-feira, 3 de setembro de 2012

Insulina



Eu não sei mais escrever, corri um pouco hoje pela manhã, era frio, cedo ainda e a rua vazia de pressas; o vento passava por mim e não me encontrou, pouco senti. Café sem personalidade. Um gramado no sol naquele dia que não se deve dizer o nome, uma tarde com quem me precisa, um pouco de tempo de quem não tem relógio; a vida agora baseia-se no medo do mal que o doce traz, uma vida em potes de açúcares artificiais e agulhas. Uma epiderme marcada que não é a minha. Uma culpa marcada de impotência própria dos sentimentos maternos. Uma única história que eu teria preferido não escrever...


terça-feira, 14 de agosto de 2012

O atalho ao lado da igreja


E na cidade os ipês mais novos já brotam suas primeiras flores, logo não é mais frio, não terei mais desculpa para fechar a janela. Um atalho até a praça em frente a igreja, é lá onde nasce a lenda dos ipês, olhos verdes que me contou. Por que tenho que lembrar disso agora? Vi só uma sombra na porta antes, não era ninguém, pelo menos não era um alguém, sombras sempre passam por aqui,  não entram. Queria que o frio tivesse ficado, não existe no inverno uma obrigatoriedade em estar feliz o tempo inteiro, agora permite ser frio, dentro e fora. Não quero florescer, deixe a porta fechada e coloque a chave embaixo da pedra. Logo depois da ponte verás como as estações mudam muito rápido.




quarta-feira, 8 de agosto de 2012

É sempre partida


Não entendo se quem realmente parte é quem embarca. Fiquei na estação naquela manhã. Agora mesmo estando aqui, não me encontro. Não sei mais onde tomar café e nem acho os livros. Me perdi. Os botões da camisa nunca ficam em ordem e a estrada não chega até o destino. Algumas placas foram trocadas. Os lugares estão errados. Opostos. Não importa mais a quantidade de pessoas na fila; estou sem senha. Plataformas de embarque são singulares, solitárias e frias, independente da estação do ano. Nada floresce antes de partir; e nem depois. Quanto antes terminar o dia melhor. Existe muita coisa acumulada em não ter bagagens.


sexta-feira, 3 de agosto de 2012

O mesmo dia



 Logo amanhece sábado, depois é dia em que não se vive, o tempo passa rápido até ele e para. Tentei me trancar para não o ver , ele entrou pela janela velha e me encontrou, tentei sair, fingir que não sabia que dia era;  há sempre algo que o identifique. É um dia marcado. Tem gosto de remédio sem água e cheiro de um mofo escuro, não sei como respirar. Mas ainda não é dezembro, preciso aprender uma maneira de fechar a janela direito, tenho que inventar outro calendário, tirar o relógio da parede, deixar a comida do cachorro pronta. Tenho que guardar os chinelos, desligar o telefone. Apagar a memória, cobrir os espelhos. Trocar a porta por outra sem vidros. Tenho que sair daqui.

( talvez  eu deva acordar cedo e levar as flores prometidas, é sempre bom pagar as promessas, mesmo que seja em um domingo, mesmo que ainda seja agosto, mesmo que não tenha gosto de nada.)



Os pés da noite e a coruja


O chá ficou esfriando na xícara, o aquecedor ligado não dá conta do frio que vem de dentro, nem o cobertor aqueceria essas horas. O dia ainda demora, a noite se estende como um tapete largo diante de meus pés descalços, se prestar bastante atenção acho que consigo ver as unhas crescendo, as minhas e as garras da noite também. Sempre acho suas marcas, as vezes no chão, outras vezes na carne dolorida. 

E mesmo que o tempo inteiro seja inverno morando aqui, amanhã não vou pela ponte, vou descer até o rio e atravessar por entre as pedras. Quando encontrar o ninho da coruja vou levá-la o mais longe que puder, onde ela possa piar em paz e eu dormir. No meio do dia com sol vejo os enormes pés da noite chegando, eles sentem-se donos do tapete, talvez o piso frio não lhe seja agradável; Acho que é hora de recolher os tapetes e abrir as velhas e empoeiradas cortinas.




domingo, 29 de julho de 2012

Férias

  
  Acabaram-se as férias de inverno. Logo é hora de acordar e a rotina das manhãs que iniciam-se muito cedo voltará. Três cafés rápidos, a disputa pelo lugar no banheiro, o preparo dos lanches, a última conferida nas mochilas para ver se está tudo ok. A correria para deixá-los em duas escolas diferentes, em pontos distantes da cidade, no horário certo. 

  Passamos as últimas duas semanas mais próximos, ficamos juntos quase que 24 horas dos quinze dias. Rimos muito, fomos ao cinema, comemos porcarias, passeamos, perdemos nosso Zoé ( o cachorro de estimação ), achamos ele no dia seguinte. Tomamos café mais tarde, trabalhei um pouco menos ( tive muito menos tempo para mim). Eles fizeram torta de bolachas com brigadeiro e confetes de açúcar. Retiramos filmes aos montes e assistimos vários juntos. Não vimos Tv.

  Um tempo precioso, de descobertas mútuas. Um tempo único e gratificante. Eles escolheram estar comigo mesmo eu não podendo mudar muito minha rotina. Eles entenderam-me e estiveram presentes. Foram nossas primeiras férias completas juntos. Foram os dias mais simples e mais cheios de importância de que consigo lembrar-me. Singelezas.

  Agora, eles dormem na ansiedade da volta às aulas; eu fico com o sentimento de gratidão por ter conseguido lembrar (mesmo no meio dessa bagunça toda que é a vida de uma mãe que cria os filhos sozinha ) que a qualidade do tempo é muito mais valiosa do que qualquer presente. 

  Triste saber que alguns abrem mão de tamanha preciosidade. Feliz de mim, que em muitos dias chego no trabalho com o cabelo bagunçado e sem maquiagem ( às vezes não dá tempo ), mas sempre dá tempo de vê-los caminhando seguros na direção de um belo futuro.

  E hoje vai ser assim, atrasada, com o cabelo estranho e feliz. Foram férias lindas!

  

  



  

terça-feira, 24 de julho de 2012

Era meu esse rosto

  Só poderia classificar a linguagem de Márcia Tiburi em Era meu esse rosto, como delicadamente enigmática.  É assim que a autora apresenta o universo de um menino de sete anos e sua família, tendo seu avô como figura chave, imersos em um cenário rural e bucólico, permeado por perdas bastante significativas e dolorosas. 

  Quando adulto parte em uma busca solitária e silenciosa, carregando apenas sua máquina fotográfica, tentando montar o que ficou incompleto em sua infância. Por vezes cheguei a pensar que as fotos eram metáforas de imagens guardadas da infância crua, ainda vivas em sua memória.

  O livro é repleto de frases fortes. Cria uma espécie de eco depois de cada parágrafo. Impossível estar imune a esse novo modelo de linguagem, um estilo único e absolutamente marcante. Narrativa generosa. Inesquecível e tocante; delicado. 

  Um livro intenso, para ser lido no inverno; à noite. Um livro para guardar com carinho, junto com as lembranças do nono fazendo cestos de vime, e do pai na poda das parreiras. Um livro com jeito de memória pura e próxima. 

  A passagem ( uma das ) que mais me marcou:

" Flores esfriam na xícara tampada sobre a pia. Chá de margaridas para a secura da pele ou a oleosidade, já  não lembro que me diz minha tia. É com essa água de ácido perfume que ela lavará o rosto antes do passeio ao cemitério ao qual iremos pela borda do asfalto. Ligaremos os dedos mínimos evitando que suem nossas mãos. Ela me pedirá que regue as plantas dos canteiros em torno do cinamomo que escurece com sua sombra a beleza da morte nos túmulos brancos, essa harmonia perfeita entre as figuras de anjos e as lápides de pedra, a clarear a feiura da morte nas cruzes de madeira sem nome, nas flores de plástico, nos túmulos de terra. As estátuas de mármore sempre acordadas cuidarão do sono dos mortos na eternidade conhecida apenas pelas pedras.
  É dezembro ou será abril? É sempre o mesmo frio, mesmo quando faz sol. São sempre as mesmas sombras mesmo quando mudam as luzes. (...) "  - Trecho inicial do nono capítulo.



  


terça-feira, 17 de julho de 2012

A vista turva


Então a sombra o engoliu, ele não era mais ninguém, ainda com o mesmo verde assombroso nos olhos, mas sem habitar sua casca de pele por vezes rachada nas mãos, ou nos calcanhares. Era vazio de algo morno que fosse. Não existia, caminhava sem pegadas, sem um reflexo no espelho velho e marcado. Passava as manhãs de frio e garoa preparando os enxertos, era época da poda. Por entre seus pés imunes à geada passavam os gatos, ele nunca os via. Ele nunca me viu, nem sabe meu nome todo; nunca me chamou. Eu morri com ele antes de nascer. Nunca fomos, seremos só o que já passou, sempre no tempo de antes. Agora não mais. Ele sabe que não levarei flores, jamais trocarei a água dos vasos, vejo os gatos com frio. Algo em mim o lembra do que deve ser esquecido, nunca saberei. Nada de cerimoniais. Seja breve por favor. 

( não esqueça de colocar mais um cobertor. Os mortos sempre sentem mais frio do que os que vivem. )




Dos atrasos



Sentei perto da janela
Na mesa ao lado apenas uma cadeira
Era lá meu o meu lugar
Estava sozinha
Não tive coragem de trocar
Te esperava.


sexta-feira, 13 de julho de 2012

Do esquecimento


No meio do diário de anotações faltou um dia. Cedo ou tarde eles somem, sobrou um espaço depois da foto; como nas viagens longas, sobra uma noite. Desde cedo perdi a contagem do tempo, sou dislexica na sua linguagem, também não entendo seu idioma. Rabiscos de um caderno de folhas brancas e capa parda. Cartas reescritas à lápis muitas vezes, sem envelopes. Sem selos. Nunca serão lidas. Aqui faz frio, ontem ventou. Sempre será verão onde estás agora. Azul. Não sei o que escreverias hoje. Nessa casa que me abriga e não é minha, guardo o caderno, nele cabe tudo que não se vive. É tua morada. Há uma certa beleza nisso e, um pesar. De manhã o  sol é distante da janela do quarto. Um musgo verde cresce perto da velha veneziana. Quem foi que falou em ausências, quando tudo que precisamos é de esquecimento na sua forma mais pura. Quem ousaria lembrar?

Talvez tu nem saibas mais ler.






quarta-feira, 11 de julho de 2012

Librerie "Eterna Cadencia", Buenos Aires


Café em copos de isopor



O resquício de algo doce para caber nesses dias de um cinza molhado vêm dos cafés e seus copos brancos; térmicos e novos. Duráveis; os copos, nunca o café. Nas mesas as pessoas falam sobre uma cidade que me conhece mas me trata como um estranho, conheço essas ruas e becos, conheço suas calçadas e desenhos; não sei como se vive aqui. Casas com portas fechadas para sempre, árvores que não têm sombras, irmãos que não se falam nunca. Talvez tenham perdido a chave; talvez seja dia de não falar nada. O verde cresce pouco entre as pedras quadradas dos pátios sempre limpos e sem flores. É só mais um inverno onde as pessoas caminham rápido entre tudo que lhes parece familiar. Os conhecidos já estão em outros lugares, foram morar onde o novo pode surpreender por entre algum prédio histórico, nas cidades que adormecem um pouco mais tarde; ou perto do mar, onde está quem se foi por sentir frio demais; deixou aqui o sentimento antigo. 

Existe um tempo de trocar as chaves. Existe uma estação em que faz frio e venta no mar. Talvez quem esteja lá lembre do que ficou. Ainda está tudo igual por aqui; mais um café e amasso a carta que te escrevi.




terça-feira, 10 de julho de 2012

O cesto de vime



Depois da curva, no alto do morro, já consigo ver as três casas. A estrada de pó e algum cascalho, nunca conhecerá a dureza do asfalto, é barro algumas vezes. Duas casas com a luz acesa. Uma delas, a do meio, é apagada. Quem vivia lá morreu de doença do fígado. Uma dor amarga o consumiu, nem o chá de losna no final da vida lhe parecia digno. Desistiu. Dorme agora onde é morada de granito cinza, quase um grafite escuro, ao lado da cruz maior que cuida de todos que ali repousam seus corpos e não mais tem relógios. Não faz diferença. Duas fotos amareladas na lápide. Os cônjuges dividem essa casa em paz agora. Sem litígios. E é como se o tempo entrasse em um acordo de cavalheiros com os outros dois. Muito antes sentiram medo, agora não mais. Seus desejos e projetos ficaram mumificados como todos os pertences das duas casa. Não há de se buscar mais oxigênio,  só o necessário. E nem o sol. Basta a luz que entra por entre a cortina. Não abra a janela. As ervas daninha cresceram na horta. As fotos ainda estão nos álbuns em cima do balcão de fórmica azul. Nunca será um amanhã diferente. O dia parou no hoje. Eles só têm o agora. A senilidade lhes é bondosa, os segundos foram apagadas, vivem só de dias arrastados. Não pesa. Quando abro a porta da última casa, o cheiro de minha infância busca o abraço que não mora mais aqui... Sobrou o cinamomo que já não tem mais sombra. É um guardião de uma casa que insisto em visitar sem ter ninguém para me receber. 

( Volto para buscar o cesto de vime que o nono prometeu.)







segunda-feira, 9 de julho de 2012

Da diferença


E ser for loucura?
Não importa, é a única coisa real.
É minha!
Nada é duradouro por aqui...

 ( Noutro dia ouvi que os dias não são todos iguais. )







sábado, 7 de julho de 2012

Sobre o impulso


Ajeitou-se na maior altura que sabia chegar. Fechou os olhos, podia sentir o vento que lhe era uma blusa macia, igual aqueles dias em que andava descalça por sobre as pedras, e a brisa tocava de leve. Olhar estático, dos que lembram; e acabam por perder-se no meio do que fica guardado. Não deveria ser permitido entrar em lugares assim. Poeira antiga. O rosto cru, de pele imaculada, pálido e marcado de tempo e dor. Não haveria de ser isso uma preocupação agora. Vestia branco. Por dentro cinza; cinzas de pura vida sem pausas, senilidades. As mãos com dedos de pontas frias; o frio sempre lhe chegara através dos dedos, logo alcançaria toda extensão de seu ser, ou do que fora. Era inverno; dos dois lados. Inteiro. Mesmo na ausência de percepções maiores, a estação mãe de todas as outras sempre lhe seria bastante clara. Marcas de um frio constante, cortante. Era tarde. Retrocedeu, dois passos para trás. Abriu os olhos. Vertigem. Seu reflexo estava impresso no vidro que por tanto tempo se recusara enxergar, outra cor. Feito de um verde assombroso. Nada que pudesse escrever conseguiria descrever aquela cor, ou toda carga de sentimentalidades que havia dentro daquelas pupilas. Nenhuma carta. Nem mesmo um bilhete. Sem adeus. Sem bagagens. Sem saltos. Nunca mais tiraria os óculos escuros diante de espelho algum.





sexta-feira, 6 de julho de 2012

Placebo e água



Forço os dedos contra a pele, quero despir-me.. Sentir a  nudez escondida atrás dessa casca feita de  lugares ausentes e casacos que não param o vento. Quero a pele longe dos pelos e sem os medos que me seguram. Arrancar o que ficou impresso nas mãos, as marcas que  identificam, queimar o que sobra. Hoje o dia se fez de cores que não existem por depois da ponte, moram nessa nuvem que vem antes. Foi chuva e ainda não passou. Os outros estão na morada de madeira e chão gelado. Não podem sentir. Caminham e os passos podem ser ouvidos aqui nessa sala sem tapete. Fez frio. Não há lenha suficiente para queimar todas as memórias. Fica apagado. Os ponteiros do relógio sempre param antes do rio. Na estrada de plátanos podados as horas são medidas por cada folha amarela que encontra a terra úmida que parece um pouco com lama. É barro, nunca seca. Nunca cessa. Não dorme. É cinza e frágil apesar de dura. A música não chega até aqui, é sempre barulho de passos e vozes que não se reconhecem. Sons graves. Depois de amanhã vai ser dia de estar presente, já sem pele; ouvindo o estalar da brasa que queima por dentro do que já não serei, tentando curar o que sobrou. 

( Pai, me alcança um cobertor? )


quarta-feira, 4 de julho de 2012

Coisas que esquecemos



  E nesse dia realmente a cidade acordou mais feliz. Delicadeza em alguns pontos estratégicos, outros inesperados. Sorrisos de surpresa, admiração. Sorrisos por sorrisos. Essa manhã de inverno, com carinha de dia emburrado, teve seu encantamento diante do novo. Rendeu-se ao belo.

  Os passantes andaram com um pouco mais de calma. A pressa dos passos em cada calçada deu lugar aos olhares mais lentos e cuidadosos, procurando o diferente no meio da confusão urbana.

  As expressões bonitas. Sorrisos gratuitos, ações pequenas e de proporções imensas. Sem barulho ou grandes transformações. Sem alarde. Sem orçamentos absurdos. Sem publicidades .Uma única pretensão: Ver sorrir. 

  E não foi mais um dia comum na nossa não tão mais pacata cidade. Feliz de quem passou e viu. Feliz de quem pode admirar, e ver com o coração aberto. Feliz de quem tomou a iniciativa. Feliz de quem ainda consegue ver beleza na simplicidade. 

  Quem fez disse: Não esqueças de olhar o centro amanhã, detalhes que às vezes as pessoas esquecem.  Olhe as praças, paradas de ônibus, algumas vitrines, postes, portas. Olhe com olhos de ver além!

  " Coisas que esquecemos " é o nome do projeto.









  

quarta-feira, 27 de junho de 2012

Pele de cão



Talvez seja muito cedo para pensar no final. Mas agora parece tão tarde para não pensar assim. E as idéias se amontoam tentando aquecer a memória do frio que faz aqui dentro. É tão longe, tão denso. Completamente modificado hoje, ontem isso tudo não faria o menor sentido. O casaco não serve mais, o frio chega e se aloja por depois dos ossos. Deixa a pele marcada de um tanto de vento gelado que passa por mim como se eu fosse apenas uma barreira que ele transpõe fácil. Ontem li os escritos de alguém que também sente frio. O vento não bateu só em mim. Gosto deles. Realidade que parece vir de uma existência ainda dolorida, digitadas em forma de um vômito por vezes curador. Se eu encontrasse a chave, talvez pudesse me curar. Nunca ouvi falar de alguém que tenha se curado de algo que não o encontrou ainda. Pode ser  pura distração, ou apenas falta de vitamina D. Queria poder conversar com quem os escreveu, parece que ele precisa conversar, parece que eu preciso conversar. Solidões paralelas e distantes, sempre com frio, a minha parece estar evoluindo para um estado pretensioso agora. As noites são mais frias, e é um pouco mais fácil dormir. De qualquer forma, essa não foi uma boa noite. Agora já é tarde e o café vai cair bem. O dia vai vir repetido de ontem, terei que montá-lo com cara de hoje. Os dias nascem para que os matemos pouco a pouco, hoje tenho urgência.




sábado, 23 de junho de 2012

Camuflagem inversa






Por que alguns dias precisam morar na gente?
Por que não posso simplesmente tirar o casaco e entrar em casa?
Por que as janelas não abrem?
Por que a claridade insiste em entrar?
Por que a velha ponte está sempre tão firme?
Por que os olhos são sempre verdes?
Por que não consigo tirar os sapatos?
Por que ninguém volta?
Por que ninguém à volta?
Por que a música é tão fria?
Por que os passos no assoalho de cima nunca cessam?
Por que esse barulho todo?
Por que a porta não é amarela?
Por que precisa de uma tatuagem para lembrar de respirar?
Por que é preciso tanta força para continuar?
Por que a mesma expressão sempre?





Music











terça-feira, 19 de junho de 2012

Emily




Tem música, uma carta, café, bicicleta, sapatos vermelhos, algodão doce e um carrossel tudo isso em um dia nublado. É lindo!



domingo, 17 de junho de 2012

Nunca te vi, sempre te amei





Anthony Hopkins e Anne Bancroft em um filme constrangedoramente encantador.

O cenário divide-se entre o apartamento de uma escritora excêntrica, apaixonada por livros raros em Nova Iorque e uma livraria em Londres, onde Hopkins é o gerente. 


Uma história simples, iniciada em 1949 e estende-se por 20 anos. Correspondiam-se por cartas durante esse tempo, trocando livros e por vezes alguns presentes. A expectativa da espera cria um enredo único, pontuado de uma ternura velada, própria da época.

A distância torna-se um mero detalhe, e as cenas em que eles sentem-se tão próximos, que falam olhando diretamente para a câmera, como se estivessem frente à frente, são emocionantes.

E nunca se viram...

Alguns trechos marcantes do filme:

" Tivesse eu os céus bordados em tecidos envolvidos por luz dourada e prateada... tecidos claros e escuros representando o dia e a noite, eu os espalharia sob seus pés. Mas, como sou pobre, tenho apenas meus sonhos. Espalhei meus sonhos sob seus pés. Caminhe suavemente: Você pisa em meus sonhos."

" A humanidade, como um todo, forma um grande livro.
Quando um homem morre, um capítulo não é arrancado... e sim traduzido para um idioma melhor. E cada capítulo deve assim ser traduzido. Deus emprega vários tradutores. Alguns trechos são traduzidos pela idade... outros por doença; alguns pela guerra. Mas a mão de Deus reúne todas as folhas soltas, e as coloca naquela biblioteca em que os livros se abrem uns para os outros."

" Sinto demais a falta dele. A vida era tão interessante. Ele me explicava e ensinava as coisas dos livros. "

Um belo filme.

* Gosto mais do título original! Vi esse filme por indicação de uma pessoa que ama outra que nunca viu. Torço para que em breve estejam juntos.






Acordo nesse dia em que nada existe, nem o dia. Mas ontem foi sábado e amanhã é segunda. A noite continua, engole o dia e beija o sol como em uma despedida. E eu sinto seu beijo também, por dentro é noite. Não se pode viver essas horas, ninguém sorri de verdade agora. Aqueles olhos permanecem por mais tempo aqui, por ser dia de descanso. Um acaso infeliz. É uma gaiola, o domingo é uma gaiola  muito velha, cheia de ferpas que ferem a carne. Essas grades, o muro e mesmo assim os olhos me alcançam. Malditos sejam eles que só vêem o verde que não existe em mim...

( mas já acordei, e agora? )


sábado, 16 de junho de 2012






áh, se essa rua fosse minha...

Prá quando for frio











Nostalgia



Te convido para um café
Deixo o convite aqui sobre a mesinha de madeira

   Se não o aceitares o vento o levará até alguém 

Alguém que possa me ouvir um pouco
Sei que tu também precisas falar

    O vento é meu amigo

Vai te encontrar
Não demora muito não

  Escolha um final de dia com chuva


Os cafés tendem a ficar mais belos em dias assim
Uma quinta feira seria perfeita

  Te espero qualquer dia ( na verdade não espero, mas te imagino muito )


O convite está feito
O vento é o entregador

  Até lá, fica bem. Cuida de ti. Depois cuidamos de nós...




( Fragmentos de Cartas ao vento - são secretas e nunca serão publicadas  )


sexta-feira, 15 de junho de 2012

Sobre as coisas perdidas



Eu perdi o eu de ontem. Hoje é tudo tão diferente. E amanhã eu nem serei nada do que imaginei hoje. Nunca alcanço o amanhã. A areia do relógio do tempo sempre acaba antes. E recomeça em um ponto qualquer. Não há uma pausa. Não há parada. O pouso é sempre em algum lugar distante. Longe de mim, sem o eu. O céu apaga-se depois da ponte, é uma nuvem. E ninguém mais sabe de mim. Eu fiquei distante e desmarco as horas que o ponteiro insiste em marcar. Deixo um vazio. Fico no vazio. No silêncio. No chão da sala sem os tapetes.  É  frio e alguns farelos de biscoitos estão pontuando o piso de madeira escura. Como se fosse um rastro antigo, uma trilha de alguém que morou aqui. Alguém foi embora. Deve ter sido eu ontem...


Uma última dança




E eu desejei te encontrar sentado na cadeira do jardim, perto das tuas videiras. Em uma sombra do que foi nossas vidas. Tu já velhinho. Te levaria para dentro de casa, segurando pela mão. Lavaria teu rosto e ajeitaria  teu cabelo. Se preciso fosse, apararia tua barba e passaria creme na tua pele cansada. Lavaria teus pés e cortaria tuas unhas. Teu melhor traje,  lembra-te? Te vestiria com ele e te sentaria na poltrona da sala, perto do fogo. Quero te olhar assim. Sentir tuas mãos, que o tempo não conseguiu mudar. Sentir também teu sorriso, que só vi quando menina. 

Sei que as palavras não são tuas amigas e que o vento leva o amor para longe de ti, na maioria do tempo. Faço um chá para nós dois, queres? Engulo teu silêncio junto com o primeiro gole, já estou familiarizada. Mas estar aqui é bom. Tuas mãos aquecidas, chamam as minhas, ainda geladas pelo sentimento derretendo. Assim viro menina com os cabelos que mal encostam na tua cintura, subo nos teus pés e dançamos. Tu lembrarias do grande dançarino que fostes. Estás cansado já, a dança dura pouco, o vigor  ausentou-se de teu corpo. Vais morrer em breve, e a palavra Perdoa-me vai contigo, no bolso do peito. Falou-me com olhos coloridos, os olhos verdes que na chuva eram azuis.

Minhas mãos são como as tuas, minha boca e meu tom também.
                     se tu pudesses imaginar o peso disso sobre mim,
e nem posso abandonar essa casca que me destes.
Carrego teu nome.
                        E também tenho saudades tuas...
                        mas já te perdi, perdi o caminho até ti...
Até as videiras te perderão...





Os teus olhos, sempre tão belos...
 E justamente te mostras à mim, que sou completamente cega...







 Não fico a esperar. Mas te sinto chegar em breve...




quinta-feira, 14 de junho de 2012

Pausar



A cortina fecha-se, é monólogo de dentro agora...
Sem aplausos
Sem ensaios
Sem coadjuvantes
Sair de cena também é parte do espetáculo.



Questões do Coração


  Logo que terminei de ler Clarice, uma biografia, de Benjamin Moser, senti a necessidade de ler algo mais " leve". Feliz surpresa por ter escolhido Questões do Coração, de Emily Giffin. Escolhi o livro ao acaso, sem nenhuma pretensão de grandes leituras, queria relaxar lendo. E foi exatamente o que encontrei nesse livro, leveza. 

  Uma história baseada em fatos cotidianos, de duas mulheres e suas rotinas. Seus conflitos, alegrias e temores. Leitura cativante. Nos faz refletir sobre a importância das pessoas que estão realmente perto. 
  
  A autora consegue colocar a aproximação e os afastamentos em linearidade, de uma maneira brilhante conduz a história à um desfecho comovente e extremamente real. Um relato verdadeiro e sincero. Uma história palpável.

  Um bom livro para um final de semana de outono. 


Questões do Coração
Emily Giffin
Editora Novo Conceito



terça-feira, 12 de junho de 2012

Uma declaração de amor, sim

  

  Passava um pouco do meio dia, de um dia sentimental, em um mês frio. Naquela hora, o movimento de carros era menor, e podia-se andar calmamente. Uma jovem abaixada no canteiro de rosas, juntando galhos recém cortados. A praça das rosas. 

  A expressão do seu rosto era suave, de alegria autêntica. Não à conheço. Mas confesso que achei a cena toda muito linda. Imaginei o jardim dela. Pensei no carinho com que cuida de suas flores. Alguém especial que deve ter lindas rosas em um vaso na sala, ao lado da lareira. Alguém que sorri.

  O senhor que faz a poda das roseiras, deixa os galhos separados para que quem passe por lá possa levar mudas. Logo serão roseiras. É preciso esperar as primeiras geadas. A época certa. Sempre achei que jardineiros possuem talento de anjos.

  Esse jardineiro não cuida só da praça, ajudou o jardim da moça sorridente ficar mais bonito. Ajudou vários outros jardins. E a moça, não cuida só de seu jardim, cuida das rosas na praça também. 

  E nesse dia, em que o sol apareceu no meio de um céu esparramado de azul, as rosas passeiam pela cidade carregadas por moto boys, as pessoas sorriem. Não é apenas o dia dos enamorados, é a celebração do amor.

   E para celebrar o amor, não é necessário que as rosas venham embrulhadas com laço de fita. 

  O amor pode caber assim, na simplicidade de um gesto de afeto do jardineiro. Na ternura de uma moça que gosta de plantar roseiras. Nas coisas pequenas. 

  O amor só precisa ser sentido todos os dias...

(  Há quem prefira margaridas, mas essa seria outra história  )



domingo, 10 de junho de 2012

As amoras



 Chove tanto. Chove muito... Um dia inteiro choveu, molhou a noite. Penso ser tuas lágrimas essas gotas todas. Teus passos inquietos sobre a nuvem. Tu choras. A nuvem chove. 

  Sobraram algumas amoras no pote, tiro-as. Quero tuas lágrimas todas guardadas. Coloco cada gota dessa chuva no pote de amoras. Sem amoras. Só tua tristeza no frasco. 

  Já tenho três frascos de ti em água. Tuas lágrimas que foram chuva e agora guardo como amoras. Tu transparente. Te olho. Não posso deixar-te cair à terra. Estarias ainda mais distante. Vou perder-te assim. E tua tristeza parece não ter fim. Chove.

  Só chove, e é o último pote agora. Precisaria de mais tantos. Depois outros tantos... 

 Tenho as mãos molhadas. De ti, que não consegui guardar. Escorres. Não consigo-te inteiro. Tudo que és não pode caber em potes transparentes. Tudo que sinto também não. 

  Nunca vou poder colocar isso em frascos, onde antes cabiam amoras. Amoras doces. Que agora não tem morada. Como eu. Sem ti, sem potes e sem amoras. 

  Quero me fazer lágrimas também. Não tuas. Transparentes. A imensa nuvem cinza. Tu. Em água. Ainda chove muito. Chove tanto... 

Amor, transbordastes hoje. Agora dorme.






sábado, 9 de junho de 2012

(de) secar



- Não gosto desse teu casaco preto!
-Por que?
- És flor!
- Acordei flor enlutada!

( não lembro onde deixei o casaco vermelho )






sexta-feira, 8 de junho de 2012



E nesses tempos de romance
apaixonei-me pela tua foto
Um caso
de Olhar-te

( incansavelmente )

Rabiscos



Não tive coragem de vestir as outras pessoas que moram em mim. Deixei-as caídas no meio da sala. Inertes e frias. Fui buscar o que respirar sozinha. Longe de todos eles. Uma pausa na pluralidade de (em) mim. Um abandono  bem vindo. Me fiz velha muito antes da chegada dos anos pesados. O rosto limpo permanece dentro das horas na noite que não acaba.Quem nunca dorme sente o tempo passar dobrado.O errado permanece empoeirado e o sorriso encoberto pelo lençol branco, o mesmo que cobre a mobília. Devo à mim mesma várias parcelas de vida, de inúmeras vidas. E essa racionalidade parece surreal agora...


Sem sentir



A cidade assim logo cedo, sem luz. Uma névoa. O frio que não vem só de fora chega, e se aloja depois dos ossos. Os passos, nem sempre firmes, não encontram a luz. Esticar a mão e tentar tocar o céu não é o bastante aqui nesse lugar. Espíritos de mentes fracas e corpos cansados chegam aos poucos. E a falta de certa sentimentalidade fere-me. O mundo comum vestido de hoje também fere. Escolhi o casaco errado, impróprio para dias que grudam na pele, mesmo com camadas extras de roupa ainda sinto. Não quero sentir, por isso o casaco. Acabo nem vendo as respostas, assim como nunca encontro as chaves. Tudo perde-se. E nada é branco. Certas cores não combinam com tudo isso. Uma ausência. Talvez a chuva devesse lavar e afogar o rio que envelheceu debaixo da mesma ponte que me acusa cada nova manhã. Leve o dia contigo, afaste-o. Deixe uma carta.